Sábado, 03 de Março de 2007, fui assaltado e, depois de ser agredido pelos marginais, creio que, por um fino, não encurtaram minha existência neste plano. Há dois anos faço mestrado longe de minha terra e, acima de tudo, das pessoas que mais amo. Minha motivação para aqui estar, em Recife, é vencer na vida, conseguir a possibilidade de dar uma vida mais aconchegante e tranquila para quem amo, incluindo minha companheira e meus pais.

Depois do ocorrido, fiquei analisando várias coisas de minha vida, o que venho fazendo, quais minhas perspectivas de futuro. A possibilidade de ter sido assassinado por nada, sem ao menos reagir, e, principalmente, ter passado os, digamos, últimos dois anos de minha vida longe de minha amada levaram-me ao choro copioso, quando desabei no sofá. De que valeriam todas as conquistas conseguidas recentemente se, no fim das contas, nada teria efeito.

Hoje penso seriamente se quero mesmo ser um vencedor ou não seria melhor levar a vida devagar para não faltar amor e fazer o melhor que sou capaz, só pra viver em paz… Afinal, qual o valor do ouro de tolo?

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Ouro de Tolo

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar um Corcel 73

Eu devia estar alegre e satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa

Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa

Eu devia estar contente
Por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto: e daí?
Eu tenho uma porção de coisas grandes
Pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado

Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família ao Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos

Ah! Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco

É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua cabeça animal

E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para o nosso belo quadro social

Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar

Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador

Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar

Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador

– Raul Seixas

As profecias

Outubro 12, 2006

Tem dias que a gente se sente
Um pouco, talvez, menos gente
Um dia daqueles sem graça
De chuva cair na vidraça
Um dia qualquer sem pensar
Sentindo o futuro no ar
O ar, carregado sutil
Um dia de maio ou abril
Sem qualquer amigo do lado
Sozinho em silêncio calado
Com uma pergunta na alma
Por que nessa tarde tão calma
O tempo parece parado?

– (Raul Seixas & Paulo Coelho)